Uma tarde, uma leitora de Setúbal, 57, divorciada há dois anos, escreveu-me: «Quero ir à Madeira sozinha em fevereiro. Tenho medo de chegar lá e sentir-me idiota. Diga-me se faço bem.»
Respondi-lhe que fazia bem. E que fevereiro na Madeira foi feito para isto.
Por que fevereiro, porque Madeira
Fevereiro é um mês estranho em Portugal continental. O Natal passou, a Páscoa está longe, chove, o corpo contrai-se, e a mente volta a pensar no divórcio com mais insistência do que em dezembro.
A Madeira, a 1 hora e 40 de voo de Lisboa, oferece em fevereiro:
- Temperatura média de 17 a 19 graus, pouca chuva na costa sul.
- Estação baixa — hotéis em promoção, restaurantes sem filas, levadas vazias.
- Dias com luz até às 18h30, suficiente para caminhar.
- Uma cultura local discreta, pouco invasiva para quem viaja sozinha.
Não é uma ilha de vida noturna. É uma ilha de pés, de chá, de paisagem vertical. Exatamente o que precisa alguém a recompor-se.
Onde ficar: três hipóteses para quem vai sozinha
- Funchal centro, perto da Rua de Santa Maria. Ruas pequenas, cafés, a sensação de bairro. Ideal para quem não conduz e quer caminhar até ao jantar.
- Estrada Monumental, hotéis de 4 estrelas. Hotéis com piscinas, spas, jardins. Ideal para quem quer ler com vista para o mar e menos vida de rua.
- Jardim do Mar ou Calheta, costa sudoeste. Silêncio, pôr do sol, quase nenhum turismo. Para quem está em fase de recolhimento.
Pequena nota prática: evite hostels e quartos partilhados. Aos 50+, um quarto próprio com varanda é um investimento no descanso, não uma extravagância.
O primeiro dia, o mais difícil
É inútil fingir. O primeiro dia sozinha, num sítio novo, depois do divórcio, dói. Chega-se ao hotel à uma da tarde, o quarto ainda não está pronto, e a pergunta «o que é que eu estou aqui a fazer?» aparece, inevitável.
Três truques que me contaram, repetidamente, pessoas que fizeram a mesma viagem:
- Não tentar preencher o primeiro dia. Deixe as malas, caminhe até ao cais do Funchal, sente-se na esplanada, peça uma poncha, e não faça planos.
- Não publicar nada nas redes sociais nas primeiras 48 horas. Esta viagem é sua. A tentação de justificá-la através de fotografias é um regresso à presença dos outros.
- Adormecer cedo. Deitar-se às 21h30 no primeiro dia. O corpo, cansado, dá espaço a uma paz que a cabeça ainda resiste.
Um roteiro pensado para uma pessoa
Sem pressa, sete dias.
Dia 2: Levada das 25 Fontes
É talvez a caminhada mais conhecida da Madeira. Comece cedo, das 8h00. Em fevereiro, encontra poucos turistas. Três horas de ida e volta, relativamente fáceis. Leve água, casaco leve, e almoço em mochila.
Dia 3: Funchal, mercado e jardim
O Mercado dos Lavradores, cedo, é uma aula sensorial. Depois, suba ao Monte pelo teleférico, caminhe no Jardim Tropical. À tarde, sem planos.
Dia 4: dia de descanso
Sem agenda. Livro, piscina do hotel ou esplanada. Muitas pessoas, sozinhas em viagem, esquecem-se deste dia e voltam mais cansadas do que saíram.
Dia 5: Câmara de Lobos e Cabo Girão
Câmara de Lobos, a vila dos pescadores, com casas baixas e barcos coloridos. Café no largo. Depois, o miradouro do Cabo Girão, uma das falésias mais altas da Europa. Emocionante sem exagero.
Dia 6: Porto Moniz, piscinas naturais
Em fevereiro, a água é fria. Mas ir até lá, ver o azul contra a rocha negra, e almoçar uma lapas grelhadas num restaurante local, recompõe. Contrate um taxista para o dia — cerca de 80 a 100 euros, incluindo esperas.
Dia 7: tarde lenta
Regresso, com um almoço longo num sítio a que tenha gostado nos primeiros dias.
As mesas para um
A primeira mesa para um, ao jantar, num restaurante da Rua de Santa Maria, é a prova de fogo. Quatro conselhos:
- Reserve antes. Chegar sem reserva, sozinha, dá a dois empregados um olhar demasiado gentil que pode incomodar.
- Escolha uma mesa ao canto, com vista para a sala, não para a parede. Observar é companhia.
- Leve um livro pequeno, de capa dura, não o telemóvel. O telemóvel puxa-a para fora da viagem.
- Pergunte ao empregado: «Se fosse o senhor, o que pediria hoje?» A conversa de dois minutos com ele é o suficiente para deixar de se sentir sozinha.
Os encontros casuais
Haverá conversas de esplanada. Haverá um sueco simpático na levada. Haverá talvez um senhor português, também sozinho, no pequeno-almoço do hotel.
A regra que ouvi, repetidas vezes, de mulheres que fizeram estas viagens: sorrir, conversar, mas não deslocar o centro da viagem para o encontro. Esta viagem não é para arranjar alguém. É para voltar a si própria. Se surgir alguém, óptimo. Se não, também óptimo.
O regresso
Quando o avião aterrar em Lisboa, vai sentir duas coisas ao mesmo tempo: saudade da ilha e uma coisa nova e pequena dentro do peito — a prova de que se aguentou uma semana sozinha, num sítio bonito, e não se desfez. Esta prova vai servir mais do que qualquer conselho.
Se ainda está a hesitar, marque o voo para uma terça-feira de fevereiro. É o dia mais barato, o menos lotado, e o mais honesto com a sua decisão.